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7 bons motivos para se traduzir para línguas indígenas brasileiras

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Hoje, pego como gancho uma postagem em um grupo de discussão sobre a tradução para o idioma guarani. Pretendo apenas responder a duas perguntas centrais que desenvolvi em um artigo publicado na revista Tradterm sobre o desenvolvimento histórico da interpretação de línguas indígenas brasileiras. E elas são: Qual é o papel da tradução para as línguas minoritárias no Brasil hoje em dia? Será que ela ainda serve como forma de manutenção e atualização da diversidade linguística e cultural dos povos em meio ao mundo globalizado?

Como resposta, resumi 7 bons motivos para se começar a traduzir para línguas indígenas brasileiras AGORA!

1. Desde a colonização, as línguas indígenas só vêm perdendo espaço

Estima-se que, no período pré-cabralino, falavam-se “quase 1.300 línguas diferentes, havendo mais de 1.100 sido extintas desde então, restando hoje no Brasil, apenas cerca de 180 línguas, faladas por uma população de 350.000 pessoas” (MAIA 2006: 229). Tais línguas correm verdadeiro risco de extinção.

2. A aculturação diminuiu a demanda por tradução

A maioria dos falantes de línguas indígenas brasileiras não usa atualmente os serviços de tradução, pois grande parte domina o português, o que lhes permite participar da sociedade branca. Isso é um reflexo da invisibilidade e da desvalorização das culturas locais, uma vez que a maioria não significa a

totalidade da população indígena, pois muitos povos ainda utilizam principalmente seu idioma nativo.

3. É necessário promover a “ecologia da tradução”

A relação de línguas minoritárias com a tradução é paradoxal, principalmente se ela for unidirecional, ou seja, feita somente para a língua dominante, de prestígio social. Ela será particularmente perigosa se os falantes de línguas minoritárias não tiverem controle sobre o processo e não puderem usá-la como uma ferramenta de força. Esse controle está relacionado ao conceito de “ecologia da tradução”:

Uma prática de tradução que dá controle aos falantes e

tradutores de línguas minoritárias do que, quando e [...] como os textos podem ser traduzidos de e para suas línguas. De certa forma, a ecologia da tradução está relacionada ao que Toledo

descreve como controle cultural: "[...] ou seja, a comunidade toma decisões para salvaguardar seus valores culturais, entre eles, o idioma, os costumes, o conhecimento, as crenças e os estilos de vida”. (CRONIN 2003: 167)

4. É preciso investir na formação de tradutores indígenas

No Brasil, aqueles que estão muito próximos aos povos indígenas são os que reúnem condições para atuar como tradutores. Portanto, a tradução é feita por moradores das comunidades ou profissionais de outras áreas que atuam nelas, como professores indígenas, linguistas, antropólogos e funcionários públicos. Entre eles, os antropólogos e os linguistas dispõem das ferramentas necessárias para a formação de tradutores de povos indígenas no Brasil. Mas para que se invista nisso, será preciso dar visibilidade à importância do tradutor perante a sociedade.

5. A tradução pode contribuir para uma mudança de paradigma

Quando os conhecimentos indígenas são traduzidos em meios de comunicação de grande alcance, a sociedade tem a chance de se dar conta da grande perda econômica, científica e étnica que ameaça a humanidade como um todo quando uma língua morre. Ou seja, as pessoas não valorizam nem têm a sensação de perda em relação ao que não conhecem, mas, por intermédio da tradução, esse conhecimento é dado e tem chances de ser preservado e valorizado. Ademais, a tradução para a língua materna contribui para a autoafirmação dos povos indígenas, para terem orgulho de seus conhecimentos e suas visões de mundo em meio a uma sociedade plural, além de abrir diversos campos de trabalho.

6. O Estado brasileiro tem um papel importante nessa questão

Cinco séculos após tensas relações com os povos indígenas, o Estado brasileiro começou a rever sua política monolíngue e conferiu a essas sociedades o direito de viver conforme suas tradições e usar suas línguas maternas, por meio da Constituição de 1988. Ainda assim, há muito a ser feito para que a legislação seja cumprida de fato. Para isso, é preciso que o problema das línguas minoritárias brasileiras ganhe visibilidade e conquiste apoio institucional em diferentes instâncias (nos níveis municipal, estadual ou federal).

7. Os tradutores têm um papel fundamental para dar visibilidade à causa

A sobrevivência das línguas ameaçadas depende de contínuas ações políticas que possam estabelecer legislações específicas e projetos de formulação educacional diferenciados. Essas ações podem ser fomentadas e apoiadas por diferentes instituições (profissionais, educacionais etc.) dedicadas à tradução. Com a viabilização de políticas linguísticas que priorizem as necessidades dos povos indígenas brasileiros, contando com a participação dos próprios interessados para sua elaboração, pode haver o consequente reconhecimento da necessidade do tradutor indígena profissional pelo governo e o treinamento necessário para a função por tradutores profissionais.

E você, está interessado em dialogar sobre essa questão? Deixe seu comentário!

E se quiser ler mais sobre o assunto, baixe o pdf do artigo original aqui.

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Referências

MAIA, M. Manual de Linguística: subsídios para a formação de professores indígenas na área linguagem. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade; LACED/Museu Nacional, 2006.

CRONIN, M. Translation and Globalization. New York: Routledge, 2003. (p. 167-169)

Constituição Federal de 1988, Artigo 215. Disponível em http://www.dji.com.br/constituicao_federal/cf215a216.htm.

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