Para Sempre Alice (Still Alice): um mundo de reflexões para os linguistas.

Na sua vida de tradutor ou intérprete, aposto que você tem alguns “brancos” de vez em quando. O que fazer quando o signo linguístico aparentemente se descola na nossa mente? Você já ouviu ou leu aquela palavra, mas ela não evoca um conceito imediato. Ou o contrário: o conceito está claro, mas a palavra certa para expressá-lo não vem à mente? Para o tradutor, é mais fácil lidar com isso, mesmo que aquela palavra surja apenas depois de meia hora. Na vida do intérprete, é bem mais difícil, mas vale tudo para dar um gás na memória: ajuda do colega, pesquisa na cabine, paráfrases, exercícios de memorização e por aí vai...

No entanto, se esses brancos se tornassem cada vez mais frequentes, a ponto de você começar a esquecer o sentido de palavras comuns, como “palavra”? Ou, mesmo agora, no momento em que está lendo este texto, você se esquecesse completamente do que acabou de ler e, aos poucos, não conseguisse mais transformar os sinais visuais que compõem as palavras em informações linguísticas importantes para reconhecer o conteúdo do texto? Lentamente, você se esqueceria de tudo o que levou anos para aprender na faculdade ou na prática. Pior: esqueceria quem você é.
Esse é o drama da personagem Alice Howland, uma linguista de sucesso, diagnosticada com Alzheimer aos 50 anos. Para Sempre Alice, baseado no livro homônimo de Lisa Genova,  é um desses filmes que pode dar calafrios em todo estudante ou profissional de linguagem, mas vale a pena assistir. Afinal, poucas histórias tratam de um tema tão caro para nós: a linguagem como base da nossa visão de mundo, da expressão de nossas emoções, de nossas ideias, do nosso sucesso como profissionais – e como lidar com a perda de tudo isso sem deixar a peteca cair.
Julianne Moore mereceu ganhar mais de 30 prêmios por sua atuação no filme, pois conseguiu transmitir a seriedade da profissão de linguista, aquele que se dedica a estudar a linguagem humana dentro de um quadro científico. Mas o ponto alto de sua atuação é quando transborda a fragilidade humana da cientista diante de fenômenos irreversíveis da natureza que ainda não conseguimos explicar ou aceitar completamente. Um dos momentos mais tocantes no filme é quando ela percebe que seu processamento linguístico está se deteriorando, ao dizer: Sempre me defini por meu intelecto, minha linguagem, minha articulação, e agora às vezes consigo ver as palavras pairando na minha frente, mas não consigo alcançá-las, e não sei quem sou nem o que vou perder em seguida
Questões que antes a fascinavam, como objeto de estudo, passam a se materializar em sua experiência: como as pessoas adquirem, produzem e compreendem a linguagem verbal? Algo que parece tão simples e natural, na verdade, requer um conjunto complexo de procedimentos mentais e sinapses neurológicas, que formam um verdadeiro parser sintático em nosso cérebro. Hoje se sabe que a palavra escrita fica retida na memória de trabalho por cerca de 1 segundo, e cerca de 4 segundos no caso da palavra falada. Então, como conseguimos processar e compreender tão rapidamente as cadeias de palavras? Por que pessoas com algum tipo de lesão cerebral perdem a capacidade de compreensão ou de produção da linguagem, não necessariamente ambos? Tais perguntas têm feito com que a área de psicolinguística cresça a cada dia, e várias pesquisas, modelos e teorias tentam dar conta delas, graças aos avanços tecnológicos. É importante frisar que o Brasil possui um dos grupos de pesquisadores que mais avança nas pesquisas de psicolinguística, em instituições universitárias renomadas como UERJ, PUC, UFRJ, Unicamp, UFSC, entre outras.
Voltando ao longa-metragem, apesar de não ter sido indicado a nenhuma categoria importante nas premiações, ele tem uma simplicidade lúcida que me encantou. Apesar de parecer um documentário da evolução do quadro de Alzheimer, ele também dá luz a essa dor da perda da memória de forma poética, mostrando o que nos resta de importante quando temos um grande branco. Deixo aqui algumas palavras em inglês retiradas de um trecho do filme para sua reflexão e, quem sabe, uma ida ao cinema? ;-)

All my life I've accumulated memories - they've become, in a way, my most precious possessions. The night I met my husband, the first time I held my textbook in my hands. Having children, making friends, traveling the world. Everything I accumulated in life, everything I've worked so hard for - now all that is being ripped away. As you can imagine, or as you know, this is hell. But it gets worse. Who can take us seriously when we are so far from who we once were? Our strange behavior and fumbled sentences change other's perception of us and our perception of ourselves. We become ridiculous, incapable, comic. But this is not who we are, this is our disease. And like any disease it has a cause, it has a progression, and it could have a cure. My greatest wish is that my children, our children - the next generation - do not have to face what I am facing. But for the time being, I'm still alive. I know I'm alive. I have people I love dearly. I have things I want to do with my life. I rail against myself for not being able to remember things - but I still have moments in the day of pure happiness and joy. And please do not think that I am suffering. I am not suffering. I am struggling. Struggling to be part of things, to stay connected to whom I was once. So, 'live in the moment' I tell myself. It's really all I can do, live in the moment. And not beat myself up too much... and not beat myself up too much for mastering the art of losing."

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